quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Lacan


Frustração

Não, este não será um testemunho sobre nenhum tipo de drama ou depressão. É a minha frustração com minha falta de conhecimento específico, afinal não se sabe tudo. Hoje, num daqueles raros momentos retirei a câmera das teias de aranha da gaveta para registrar minha gatinha. Depois de tudo feito, fui na alegria de criança transferir as fotos para o pc. E qual não foi minha surpresa? Estava sem o cartão de memória. Após colocar o cartão, não consigo visualizar as fotos na memória interna. Não, eu não tenho o cabo da câmera. 

Frustração, frustração. 

Entrevista - Jorge Forbes

O psicanalista e médico psiquiatra Jorge Forbes sempre defende que buscar alguém para suprir as carências emocionais é assinar um atestado de infelicidade permanente. "Só pode estar junto aquele que pode estar separado. 

A felicidade é uma responsabilidade pessoal e intransferível". Segundo ele, a primeira coisa que é necessário saber é que a felicidade amorosa não tem garantia. "Todo amor é um contrato de risco que mantém os parceiros sempre alertas". 

Doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Psicanálise pela Universidade Paris VIII e doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), Forbes é um dos principais introdutores do ensino de Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminários em Paris, de 1976 a 1981.

 Teve participação fundamental na criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral, e atualmente preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA). Recentemente, ganhou o prêmio Jabuti com o livro Inconsciente e Responsabilidade - Psicanálise do Século XXI, em que estuda as mudanças necessárias a uma psicanálise para os tempos pós-modernos, além do Édipo. 

Para Forbes, estamos vivendo uma nova forma de amor, que ele define como o amor da pós-modernidade. "As pessoas estão com as outras porque querem, não mais por obrigação ou necessidade".

 Apesar das conquistas femininas e de as pessoas atualmente serem muito mais independentes econômica e intelectualmente, percebe-se que homens e mulheres ainda buscam na relação o seu ideal de felicidade. Por que? 

Mas será que vamos pensar que a única razão para que as pessoas estivessem juntas seria a dependência econômica ou intelectual? Isso é desacreditar de vez no amor ou achar que amor é tema menor e piegas. Não vejo assim. É exatamente porque diminuímos as dependências que fica mais evidenciado o difícil que é a vida sem alguém. 

 E por que é tão difícil a vida sem alguém? Há um temor da solidão? 

 Gosto muito da frase de Nietzsche "Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro". Sérgio Buarque de Holanda a lembrou quando comentou a cordialidade do brasileiro. É muito difícil frequentar a solidão de si mesmo, mas não tem jeito. Só quem pode ficar separado é quem pode ficar junto. 

 Então qual a melhor maneira de lidar com a solidão? 

Encontrando alguém. 

O senhor acredita que temos evoluído pouco no aspecto sentimental? 

Acredito no contrário, que estamos vivendo uma mudança importante a ponto de merecer um nome: "novo amor". Até bem pouco tempo, as pessoas ficavam juntas em nome de algo ou de alguém. Dizia-se, por exemplo "Estou com você porque jurei na igreja"; "Estou com você porque não vou me afastar dos meus filhos"; "Estou com você para manter nosso patrimônio"; e por aí seguia. O fato é que, hoje em dia, temos um novo amor, livre dessas intermediações, no qual se uma pessoa está com outra é porque quer, mesmo que diga que não.

 Esse é o amor que o senhor define como o amor da pós-modernidade, no qual o laço social é predominantemente horizontal? Que tipo de amor é esse? 

Sim. A pós-modernidade trouxe uma revolução no laço social nunca antes vista. Nos últimos 2500 anos, nossos laços sempre foram verticais, no sentido de nos agruparmos em torno de um padrão, constituindo o desenho de uma pirâmide. Seja colocando no topo da pirâmide a Natureza, Deus, ou a Razão. Hoje, não há mais padrão, por conseguinte, não há mais verticalidade, motivo de falarmos em sociedade de rede, horizontal. Nessa sociedade, detectamos um novo amor pelo qual a responsabilidade é só dos amantes, sem desculpa. Uma pessoa está com a outra porque quer, ponto. O curioso é que normalmente não sabemos o que é esse querer. Ama-se sem saber o porquê e responsabiliza-se por esse não saber. 

Em Os complexos familiares na formação do indivíduo, Lacan diz que a família prevalece na primeira educação e preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico. Isso explica o fato de alguns serem mais carentes que outros? 

Carentes somos todos, uma vez que sempre nos falta algo. Por mais que recebamos, o desejo sempre aponta um mais além. O que nos diferencia é como reagimos às carências. A família cumpre um primeiro papel muito importante, mas, para nossa sorte, não definitivo. Sorte porque, se não fosse assim, cairíamos no determinismo que pensa que uma vez tendo tido um problema na infância, não se teria mais conserto, teria que nascer de novo. Nada disso. 

A carência gera pessoas que desenvolvem uma dependência afetiva muito grande. Em contrapartida, vivemos em uma época em que as relações terminam mais facilmente. Como explicar isso? 

De fato vivemos uma época de mudanças de parceiros mais frequente que anteriormente. Isso não quer dizer que estejamos amando pior. Essa aparente contradição se explica facilmente. Se estivermos de acordo com o já dito, que uma pessoa só está com a outra hoje em dia porque quer e não por segundos ou terceiros motivos, não havendo mais amor, ou se reinventa ou se separa. 

O senhor afirma que buscar alguém para suprir as carências emocionais é assinar um atestado de infelicidade permanente. Como evitar que isso aconteça? 

Evitando a dependência excessiva do outro. O problema é que, ao encontrar alguém aparentemente disponível, muitas pessoas agarram-se a ela como garantia de segurança emocional, econômica, social, espiritual, mas isso não é a felicidade. Idealizar que o parceiro é a fonte da felicidade tem dois lados ruins: o primeiro é que, enquanto está sem par, a pessoa acaba desvalorizando as outras conquistas da sua vida, que também são importantes, mas acabam passando despercebidas. Segundo porque, se, por acaso, ela consegue que seu relacionamento amoroso atinja seu ideal de felicidade, está fadada a perder essa situação, já que nenhum relacionamento consegue ser ideal eternamente. É preciso entender que só pode estar junto aquele que pode estar separado. Felicidade é responsabilidade pessoal e intransferível.

 De que maneira esse apego ao outro se traduz no universo virtual, uma vez que observamos cada vez mais pessoas dependentes da rede social? 

Pessoas são dependentes de pessoas desde que o mundo é mundo. Nós nos entendemos sempre através do outro. Haja vista essa entrevista (risos). A identidade de uma pessoa é relacional, se dá na relação com as outras e com o meio. É o que possibilita dizermos que uma pessoa me faz sentir melhor, outras, pior. As redes sociais não são culpadas disso, elas só evidenciam a nossa natureza humano-dependente. 

De fato, todo relacionamento amoroso é um contrato de risco? 

Sempre. O amor é um contrato de risco, no qual não há garantias. Isso porque não é possível estabelecer todas as cláusulas necessárias a um acordo. Até mesmo o elementar "Eu te amo" é sempre escutado com desconfiança, que leva o parceiro a responder "Ama mesmo?". Amor é um contrato de risco que mantém os parceiros sempre alertas. 

E o maior risco é daqueles que costumam transformar amor em remédio? 

Se amor é remédio, ele é daqueles cheios de efeitos colaterais e de reações adversas. Seria divertido escrevermos a bula do amor. É o que os poetas tentam todos os dias, em um trabalho infinito, pois sempre falta algo a dizer. 

Ouvimos diversas pessoas se queixando sobre as mudanças que surgem depois de um tempo de relação. Querer que seja sempre "à flor da pele" é um dos principais motivos para o fracasso? 

O amor acorda, mas, de vez em quando, você quer dormir. Aí, com boa razão, vem o medo de o amor ir embora, o que leva muitos a tentarem congelá-lo para depois comê-lo requentado no microondas. Amor requentado dá azia brava. A paixão pode ser chamada de felicidade, mas, quando se transforma em um ideal de vida, fica supervalorizada e representa um perigo. Fica bonito no teatro, mas é muito triste na vida real. Daí personagens como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. Morreram porque tentaram eternizar a paixão. 

O estado da paixão, de acordo com a ciência, dura de dois meses a dois anos, porque, se durasse mais tempo, ninguém conseguiria suportar. É isso mesmo? 

Divertem-me essas definições pseudocientíficas. O amor é uma coisa séria demais para ser formatado em padrões empíricos e objetivos. Agora, de fato, é duro suportar uma emoção que te questiona todos os dias. Há amantes entusiasmados e amantes cansados, não é uma questão de tempo, mas uma questão de criatividade. 

Algumas relações amorosas tendem a extrair o que há de melhor em nós, outras, por sua vez, nos fazem ficar cara a cara com o nosso lado mais sombrio. Em sua opinião, por que isso acontece? 

Toda relação digna desse nome nos oferta os dois lados: o melhor de nós e o mais sombrio. O que se espera é aproveitar o melhor e com ele se guiar no lado mais sombrio. 

O senhor diz sempre que felicidade não é bem que se mereça. Seria então uma questão de sorte? 

Olha, quando eu escrevi sobre isso, a ideia era chamar a atenção para o contrário daquilo que se pensa normalmente, a saber, que a felicidade seria fruto dos nossos merecidos esforços. Não é não. A felicidade, do ponto de vista psicanalítico, se dá no encontro, na surpresa, e não há esforço nenhum na surpresa. E, como disse antes, para haver encontro não pode haver dependência. Se não, o que se dá não é um encontro, é parasitismo. A felicidade sempre nos parece inalcançável. Por isso, quando uma pessoa está feliz, ela não sabe quem ela é, ela pensa que está sonhando ou que houve um engano. Ela acaba vivendo uma crise de identidade: "Esse cara sou eu?". O mais triste é que a maioria das pessoas se assusta e sai correndo de medo da felicidade, exatamente pela sensação de estranheza que ela provoca. Por isso, dizer que há que se suportar ser feliz.

Fonte. 

http://atarde.uol.com.br/muito/materias/1561790-felicidade-e-responsabilidade-pessoal-e-intransferivel

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Somos escravos felizes?

Sempre me impressionou, desde que estudava os clássicos, a afirmação do historiador e político Tucídides, que há 2.450 anos sustentava que o sucesso dos tiranos reside na felicidade dos escravos com sua própria escravidão, afirmação essa que foi lembrada outro dia pela escritora Rosiska Darcy de Oliveira em sua coluna em O Globo.

 Dois milênios e meio mais tarde, a dura e irônica frase de Tucídides continua atual em nosso mundo globalizado, embora com perfis mais modernos e sutis. Hoje, de alguma forma, todos somos de alguma maneira escravos, embora não o admitamos, e até dá a impressão, às vezes, de que somos igualmente felizes. E muitos políticos e governantes continuam exercendo formas de tirania, embora hoje venham revestidas com roupagens de democracia. Como naquela época, também hoje o sucesso dos que nos governam é uma razão direta do grau de satisfação que demonstramos com a nossa própria escravidão. E seu fracasso será também proporcional à nossa capacidade de nos sentirmos infelizes com as correntes que eles nos impõem e que aceitamos. 
 Quando, em junho passado, o Brasil se lançou às ruas para reivindicar seus direitos, foi como se de repente as pessoas tivessem se dado conta de que, sem perceberem, estavam amarradas a uma sutil escravidão. E os políticos e governantes se assustaram pelo fato de os cidadãos terem deixado de serem felizes com suas correntes. E tentaram tranquilizá-los prometendo-lhes que os libertariam. 
 Os brasileiros perceberam, de repente, de que eram de alguma forma escravos quando precisavam usar meios de transporte público que poderiam servir também para o gado; ou os hospitais, ou as escolas. Perceberam que se é escravo politicamente, inclusive na democracia, quando é permitido apenas exercer o direito de voto a cada quatro anos, sem poder participar da gestão da vida pública e sem poder contestar os privilégios escandalosos com que se presenteiam os que decidem sobre nossas vidas. 
Os políticos decidem livremente, por exemplo, seus fabulosos salários. Por que os professores, por exemplo, não poderiam então fazer a mesma coisa? Perceberam que se é escravo quando você não pode sair com tranquilidade à rua sem saber se será assaltado, violentado ou sequestrado. 
E, se você for pobre e negro ou de cor, se poderá acabar barbaramente torturado e morto por policiais corruptos, como um Amarildo qualquer. Ou, se você estiver na prisão, se acabará decapitado. Há muitas formas de ser escravo. E a pior das escravidões é o não saber que se é escravo. 
Às vezes, os escravos de verdade lutam por sair da sua situação, enquanto os que nos sentimos livres podemos ser mais escravos do que eles, sem sabermos disso. Pode-se ser escravo pela força e escravo por vontade própria. Pode-se ser interiormente livre vivendo na escravidão forçada, e pode-se ser escravo por dentro enquanto acreditamos ser livres. Hoje, no Brasil, há aqueles que ainda são forçados a viver em condições de trabalho escravo, e quando são descobertos recuperam sua liberdade. 
 Mas há também os escravos voluntários. Os que não precisam de um feitor que lhes coloque as correntes nos pés; eles mesmos as colocam. Somos cada vez mais escravos, por exemplo, de um consumismo desenfreado, fomentado não só por nossa natureza, que nos impele a possuir, mas também pela mão invisível do poder que usa todos os modernos instrumentos da publicidade para fazer com que nos sintamos escravos, insignificantes, perdedores e marginalizados se não conseguimos comprar o último modelo de tudo. Somos, afinal, escravos de nossa própria vaidade. 
Há mulheres da classe média que se sentem desconcertadas vendo que sua empregada pode usar o mesmo perfume que ela ou o mesmo modelo de celular ou a mesma geladeira. Já não se sentem exclusivas em seus objetos de consumo. Somos escravos da vertigem das tecnologias digitais e nos sentimos felizes por sê-los, a ponto de que adoeceríamos se nos impusessem a abstinência das mesmas. 
Somos os modernos escravos que amamos nossas próprias correntes. E, como na síndrome de Estocolmo, chegamos a nos apaixonar pelos que nos escravizam, como, por exemplo, nossos políticos corruptos. Assim se explica que os políticos com menos escrúpulos, os mais desavergonhados, os que mais nos escandalizam, os que roubam com mais descaro, e os que são muitas vezes os mais medíocres culturalmente, acabem sendo os mais votados por nós em nossas urnas. 
 Sentimos mais fascinação pelo político que soube se impor e brilhar graças às suas formas corruptas de atuar e abusar de seu poder do que pelos que se esforçam em impor a ética na política. É como as crianças que acabam admirando mais o colega violento, arruaceiro e malandro do que o gentil e generoso, mais o que bate do que o que apanha injustamente, mais o que nos subjuga do que o que nos acolhe. 
 Qualquer tipo de escravidão, livremente buscada ou imposta pelo poder, é uma arma nas mãos dos que nos governam, sobretudo se somos nós mesmos os que aceitamos livremente essas correntes e até nos sentimos confortáveis com elas. A liberdade às vezes nos dá mais medo do que a própria escravidão. 
 O Brasil vive um momento especial neste 2014, que se resume em três palavras: Copa do Mundo; possíveis novas manifestações de protesto e a ida às urnas. Três momentos que serão importantes para medir o grau de vontade de quererem ser livres ou de preferirem continuar perpetuando uma parte da nossa própria escravidão. 
 Com a Copa do Mundo, será possível analisar a capacidade governamental de realizar, perante os olhos do mundo, um acontecimento dessa envergadura com resultados positivos que nos obriguem a nos orgulhar ou, pelo contrário, que demonstrem que não estávamos preparados nem para fazer gastos públicos milionários que não deixam uma marca positiva duradoura nem para suportar a presença de milhões de estrangeiros com nossas infraestruturas precárias (leia-se, por exemplo, aeroportos, estradas, hotéis, etc.) que desafinam diante dos modernismos e dos estádios às vezes inúteis, catedrais efêmeras da vaidade. 
 As possíveis novas manifestações de protesto, que desta vez poderiam se realizar sem a presença de grupos violentos, já que as forças da ordem agora estarão preparadas para neutralizá-las, serão um teste que revelará se era verdadeiro aquele despertar de junho passado, em que centenas de milhares de cidadãos revelaram que não queriam continuar sendo escravos da má gestão da vida pública e desejavam poder gozar dos benefícios da modernidade. 
 Ou se preferem continuar vivendo com as mesmas correntes de sempre – já que as promessas dos políticos, então assustados, ficaram quase todas na gaveta –, sem vontade para continuar reivindicando novos espaços de bem estar para todos, de liberdade cidadã e de uma maior participação na vida pública. 
E as urnas de outubro serão o terceiro teste que revelará o grau de escravidão que se deseja perpetuar ou a vontade e capacidade de querer se libertar de certas incongruências políticas, como são nossos protestos contra políticos corruptos para depois continuar votando neles porque, no fundo, nos fascinam mais as sombras do que a luz, e esperamos mais dos violentos e prevaricadores, que tudo prometem embora depois nada ofereçam, do que dos honestos que oferecem menos, mas dos quais caberia esperar uma maior esperança de ressurreição e de liberdade. 


 Somos assim às vezes: escravos felizes.


fonte. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/10/opinion/1389392814_512458.html

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu tinha um cachorro preto, seu nome era depressão.

O TEMPO E AS JABUTICABAS

Amo Rubem Alves. Compartilho com você mais que uma reflexão, um ensinamento. Espero que goste.




Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. 
As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. 
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
 Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. 
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
 Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
 Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. 
 Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'. 
 Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'. 
 Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... 
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo. 
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.' 

O essencial faz a vida valer a pena. 


 Rubem Alves

sábado, 28 de dezembro de 2013

Carta de Ano Novo para um filho que aprendeu a ler


O texto é tão lindo, tão puro e completo. Embora ainda não seja Pai, fiquei emocionado ao ler essa cartinha. 
Compartilho com vocês. 


Querido João,
Já é quase final de ano. Pela primeira vez, você e eu não estaremos juntos na virada, tapando as orelhas na hora dos rojões, olhando o céu riscado de fogos, enchendo a pança de maionese, farofa, arroz com uva passa. Este ano, como acontece a muitas das crianças quando os pais tomam caminhos diferentes na vida, você passou o Natal comigo e, nada mais justo, no réveillon vai estar com a mamãe.
Então, como eu sei que a saudade vai bater violenta quando der meia-noite e você não vai estar por perto para me mostrar bagunceiro os quatro zeros no relógio do celular, eu resolvi escrever esta cartinha a você. Porque assim, desde já, é como se você estivesse aqui pulando, derrubando a casa, irritando a vizinha infeliz do andar de baixo, fazendo todas aquelas perguntas que eu nem imagino de onde surgem. E eu tentasse respondê-las enquanto a gente luta contra o sono e sente o maior dó dos cachorros torturados pela barulheira dos fogos. Cada um tem um jeito de lidar com as coisas da vida, meu filho. O meu é este. Batucando para fora o que passa aqui dentro.
Aliás, escrever-lhe esta cartinha ganhou um novo e maravilhoso sentido agora que você se tornou um leitor tão curioso e voraz. E apesar da minha pacholice de ver meu pequeno deslumbrado com a própria capacidade recente de compreender e reproduzir palavras, palavrinhas e palavrões por escrito, eu sei que esta cartinha você só irá ler mais tarde, daqui a um monte de anos. Porque o conteúdo dela é aborrecido e profundo demais para dias de muita festa e pouca idade. Longo o bastante para um leitor iniciante e inocente como você é hoje.
No entanto, mesmo sabendo que não vai ler isso agora, aí vão duas ou três observações para o meu homenzinho na manhã da vida, se alfabetizando das coisas do mundo, encantado com a descoberta das letras que formam sílabas e compõem palavras. E que juntas dizem frases e contam histórias como a nossa.
Um dia, no futuro, quando ler estas bobagens você vai saber que, lá atrás, este seu quase velho pai já o amava de toda a vida e passava mais tempo pensando em você do que ele mesmo imaginava. Entre todos os seus afazeres de criança, adolescente ou quase adulto, talvez você pare um segundo e pense “é, acho que o velho gostava mesmo de mim”. E vai me ligar do seu iPhone 21, com comando de pensamento, me convidando para assistir ao seu lado a um velho e riscado blu-ray do Homem de Ferro.
Mas enquanto espera ser encontrada por você, que esta meia dúzia de palavras seja vista pelos amigos. Afinal, testemunhas valem ouro. Tanto nos juramentos de quem se casa quanto nesta declaração de amor de um pai por seu único e mais que amado filho.
Tudo isso é para dizer a você que o mundo é um jardim de rodas gigantes, meu filho. Sabe aquela roda gigante do parquinho? Cada um de nós é uma delas. Somos todos rodas, rodinhas e rodonas rodando pela vida, revezando instantes lá em cima e lá embaixo, embarcando nas outras pessoas, em seus grandes círculos iluminados e em movimento, subindo e descendo.
Vez ou outra, estamos lá no topo da roda. No lugar mais alto, de onde dá pra sentir o sol mais perto, queimando nossa testa com o fogo de existir. Dali de cima dá pra ver a cidade inteira, as casas e os prédios como miniaturas de um brinquedo e as pessoas pequenininhas lá embaixo. Às vezes a roda para justo quando a gente está lá no alto. E isso é um presente. Tudo fica suspenso, o mundo congela no instante supremo, você segura o xixi e não pensa em mais nada. Porque tudo se resume àquele momento de grandeza, que, aliás, muita gente adora chamar de “paz”.
É quando sobra tempo de olhar devagar o céu e as nuvens. Dá tempo de procurar lá embaixo a direção da nossa casa. Tempo de curtir a paisagem como se o mundo todo fosse aquela sensação de desprendimento absoluto. Quando esse instante chegar, meu filho, aproveite!
Porque, claro, também há dias em que a roda gigante para com a gente lá embaixo, ou lá no meio. É quando a gente parece não ter muita importância. Quando estamos “em baixa”. Acontece. Assim como também chega a hora em que a gente deve desembarcar da roda e dar o lugar a outros passageiros.
É da vida, meu pequenino viajante. De todas as rodas gigantes do mundo, em pouquíssimas delas a gente tem cadeira cativa, perpétua, vitalícia. Quando isso acontece, a gente valoriza o quanto pode. E, olha, às vezes até esses lugares a gente perde.
Agora, tão importante quanto tudo isso é você valorizar as rodas em que embarcar. E nunca esquecer de que na sua roda gigante entra só quem você quiser. E fica só quem você escolher. Portanto, escolha direitinho e cuide bem dos seus passageiros.
Daqui, resta dizer que você é o meu passageiro preferido. É por pessoas como você que esta roda segue rodando.
Já é quase fim de ano. Divirta-se por aí e volte logo para me contar como estava a praia. Por aqui, nossa roda gigante continua esperando por você.
Feliz Ano Novo, meu filho. Um beijo e até já!
Com amor, papai.