quinta-feira, 14 de março de 2013

Um pouco de mim


 Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Mudo, mas não mudo muito. A cor das flores não é a mesma ao sol De que quando uma nuvem passa Ou quando entra a noite E as flores são cor da sombra. Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. Por isso quando pareço não concordar comigo, Reparem bem para mim: Se estava virado para a direita, Voltei-me agora para a esquerda, Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés - O mesmo sempre, graças ao céu e à terra E aos meus olhos e ouvidos atentos E à minha clara simplicidade de alma ... 

 Alberto Caeiro

quarta-feira, 6 de março de 2013

A volta

Estava a pouco pensando em mudar o nome deste humilde blog para: Blog Abandonado.

Como pode o sujeito criar um blog, convidar as pessoas e desaparecer assim de repente. Muito estranho. 

É óbvio que nem em todos os casos a justificativa deve ser aplicada e muito menos considerada. Mas neste caso específico cabe justificativa e ela deve sim ser considerada.

Desde o ano passado, coloquei como meta (assim como todos os anos anteriores) mudar a direção, arriscar, buscar o novo tanto no pessoal como no profissional (isso lembra o Faustão hahaha). Acontece que sem querer, QUERENDO, aconteceu.

Porém, confesso que meu objetivo não era tão grandioso como está sendo.
Fico a imaginar que neste exato momento deve surgir aquela dúvida/curiosidade: Do que ele está falando?
Ok, ok. Muito em breve publicarei algo específico sobre essa questão.  

Dando continuidade para finalizar minha justificativa, as últimas semanas têm sido de correria total. Madrugada, estrada, trabalho, estrada, casa, mulher e, claro, minhas leituras que são indispensáveis. 

Agora sim, entrando no assunto que quero dividir aqui no espaço, estou finalizando mais um livro do Rubem Alves. Para quem de costume acompanha as publicações sabe que sou mega fã do Rubem Alves.

O livro – Variações Sobre o Prazer – é uma delícia assim como as demais obras do autor. Nessa obra, Rubem nos transporta para uma profunda reflexão sobre a vida. Por meio de temas variados, Rubem Alves não sustenta uma tese, é um bate papo informal, ele conversa conosco através das palavras.



Alves não dirige essa obra para intelectuais, professores ou estudantes. Ele escreve para quem se cansou do método, das regras e condicionamentos. Fala sobre educação, filosofia, teologia, economia, culinária. Sobre o corpo e a velhice.

Rubem passeia com profunda intimidade por Nietzsche, Kant, Marx, Santo Agostinho, Barthes e etc. Faz um tour na música erudita e pelas poesias. Sem se esquecer da mais fina literatura brasileira.

Quase por finalizar essa leitura, chego à conclusão de que se fôssemos avaliar a vida de zero a dez, certamente, entregamos oito por cento dela ao desperdício. Rubem constata que só percebemos isso na velhice, e nela também percebemos que o fim está próximo e que já é tarde demais para lamentar.

Como o próprio Rubem adverte, faço de suas palavras minhas.

“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Não deixe a cantada morrer

Por Xico Sá 

 Vem agora esse aplicativo do Facebook para facilitar – ainda mais - a comilança, como diria o meu amigo Marco Ferreri. Eu te marco, tu me marcas, então tá combinado, é só sexo e amizade. 

 O nome do brinquedinho é Bang With Friends, o BWF. Sem arrodeios, trepe com amigos. 

Assim muito objetivo e direto, sem gastar o latim e o lero-lero. Tudo bem, sintoma dos nossos tempos – chega de mascar o chiclete Ploc da nostalgia.

 Sejo com amigos ou futuros inimigos, no problem, vamos nessa. Aqui mesmo, em posts anteriores, falei do bom risco de estragar uma amizade. 

 O que incomoda, meu caro, é outra coisa. Estamos perdendo a sagrada arte da cantada, os fragmentos do discurso amoroso, a dramaturgia da conquista, o suspense Hitchcock do xaveco, a incerteza que instiga e aumenta a fissura, a fome de tudo.

 O bom, mesmo na mais banal das transas, é o processo de desejo, o sexo falado antes do sexo deveras feito. O que se diz um para o outro, mesmo que tudo aquilo só dure por uma festa. 

 Os idiotas da objetividade, como chamava o tio Nelson, já destruíram a imaginação dos jovens. Agora querem eliminar qualquer tipo de linguagem que não seja dois cliques e uma penetração mal-conduzida. 

 Quando falo de imaginação, falo de masturbação, este recurso tão caro a todos os machos, principalmente aos rebentos, aos rabiscos de homens. A punheta com enredo, sejamos diretos, está praticamente morta. 

Em vez de criar uma narrativa do desejo latente, 1 minuto de pornotube. Não se masturba mais pela prima, a coleguinha da classe, a vizinha do 202 etc. Isso fará falta no futuro, em matéria de criatividade, às novas gerações. 

Mas chega de aplicar o Piaget de boteco com esses moços, pobres moços.

 Voltemos ao Bang With Friends. Nada mal que um encontro seja armado pelas redes sociais e seus penduricalhos. Lindo. Não à toa, alguns amigos tratam o FB por “facebuça” e outras baixarias de porcos chauvinistas. 

 O que me incomoda é que a coisa seja tão direta. Sexo bom carece de sedução e cantada, mesmo que o encontro seja pista do Love Story ou no último cabaré da Lapa. 

 Assim como o entre sem bater, não trepe sem cantar. 

 Fonte. Folha de São Paulo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Por que uma comunidade não se desenvolve?

  As pessoas repetem o que sempre fizeram porque existe algo desmobilizando a sua criatividade e a inovação, em geral uma cultura que não as encoraja a fazer nada diferente do que já foi feito e, pelo contrário, infunde o medo de que empreender é muito arriscado e pode trazer prejuízos;

As pessoas permanecem na condição de beneficiárias passivas porque foram transformadas em pacientes de programas assistenciais que já vêm prontos, desestimulando o enfrentamento coletivo dos problemas comuns;

As pessoas ficam esperando recursos que vêm de fora porque tais recursos são sempre conseguidos pela intermediação (clientelista) de algum benfeitor em troca de certo tipo de apoio (em geral eleitoral), substituindo a cooperação que alavanca recursos da própria comunidade pela competição por esses recursos de fora (para ver quem os conseguirá e quem deles se aproveitará).

As pessoas desconfiam umas das outras, não acreditam na capacidade das outras de fazer alguma coisa que beneficie a coletividade porque sua cooperação é desestimulada por chefes (centralizadores), que dizem que só eles têm poder para resolver os problemas (se tiverem apoio, em geral eleitoral).

As pessoas e as organizações se relacionam verticalmente, em uma escala de subordinação, preocupadas o tempo todo com sua posição de poder e com sua capacidade de mandar porque ficam à mercê da vontade de algum político poderoso para o qual não interessa a troca de informações e a articulação em rede da população para fazer qualquer coisa autonomamente.

Trecho do livro: O Lugar mais Desenvolvido do Mundo - Augusto de Franco.