quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Em uma sociedade de analfabetos, ser inteligente na adolescência virou crime

O fato de alguém ser adolescente não implica carimbar o passaporte para a consumição impunível do lixo cultural — como se o cérebro do jovem permanecesse atrofiado até a maioridade



Muito já se disse sobre a adolescência. Na verdade, o entendimento desse período da formação humana tem sido um dos temas abordados amiúde por psicólogos e psicanalistas. As opiniões são as mais variadas: de “luto da infância” à correntia “fase de transformação biológica e emocional”, é possível encontrar definições para todos os gostos e tamanhos. Até um clichê já se cunhou para classificar o momento: “aborrecente” — termo usado na confluência das noções de “aborrecido” e do sujeito que adolesce.
Imediatamente, identifico dois problemas nessa situação. O primeiro, e mais óbvio deles, é que a assimilação conceitual de uma “ideia de adolescência” dá-se, em geral, por pais sem nenhum preparo científico para compreender o conceito com o qual estão a lidar. Isto mesmo: a maioria dos pais educa seus ignorando a psicologia e a psicanálise.
Logo, para pais-educadores que desprezam reflexões de ordem educativa, é natural “comprar” o ideário vendido nos livros de autoajuda — que quase nunca analisam a juventude desde uma perspectiva crítica, optando em tratá-la qual um “rito de passagem” inócuo ao mundo adulto. Isso para não falar daqueles pais extremosos que se deixam enganar por discursos oportunistas, visto que desprovidos de qualquer cientificidade, a apresentar fórmulas para “domar” a juventude — indo dos “manuais sobre como tornar seu bebê tão inteligente quanto Einstein fazendo-o ouvir música erudita mozartiana no berço até lavar o cérebro do microinfante” aos adeptos das sempre condenáveis práticas herdadas de uma tradição de violência ditatorial (a “pedagogia da palmada”). “Adolescentes”, esses livros frequentemente ensinam, são pessoas em “fase de transformação”. E é natural “ser” assim um tanto atabalhoado, um tanto desnorteado, para não dizer displicente mesmo com a própria formação intelectual. O conhecimento vulgar trata o adolescente como uma folha de papel de impressão delével, que só se começa a colorir mui tardiamente com as tintas permanentes da paleta da cultura e da intelectualização.
Obviamente, estudiosos sérios de um assunto sério, como é a adolescência, hão de repelir essas vulgaridades conceptuais. Recorrendo à historiografia, alguns mitos são facilmente degringolados. O primeiro deles é acreditar na ideia de uma adolescência anistórica e atemporal. Quem assim crê ignora que a puberdade, entendida como maturação sexual, nem sempre esteve acompanhada da “ideologia adolescente”. Adolescência é, na verdade, uma “invenção” moderna.
É nesse sentido que se manifesta Contardo Calligaris: “Nossos adolescentes amam, estudam, brigam, trabalham. Batalham com seus corpos, que se esticam e se transformam. Lidam com as dificuldades de crescer no quadro complicado da família moderna. Como se diz hoje, eles se procuram e eventualmente se acham. Mas, além disso, eles precisam lutar com a adolescência, que é uma criatura um pouco monstruosa, sustentada pela imaginação de todos, adolescentes e pais. Um mito, inventado no começo do século 20, que vingou sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial”.
Uma vez inventado o mito da “adolescência”, passamos ao segundo dos problemas — decerto o mais grave. Trata-se da concepção segundo a qual a fase de transformações psicofisiológicas, no curso da qual o sujeito adolesce, tende a absolver toda e qualquer forma de experimentação cultural desorientada ou deficiência de formação intelectiva. Nesse prisma, o jovem estaria livre para participar das mais distintas experiências no campo da cultura — podendo até mesmo prescindir da intelectualização prematura. Em princípio, numa sociedade idealizada, não haveria problema nisso.
Poderia ser salutar ao jovem o contato com distintas influências, alargando seus horizontes de entendimento vital.
Mas o problema reside justamente nisto: não vivemos numa sociedade “ideal”. Vivemos, isto sim, numa sociedade de massas direcionada à consumição do kitsch. E a adolescência afigura-se como a vítima ingênua — e praticamente indefesa — da indústria cultural capitalista que não reclama raciocínio ou inteligibilidade.

Estupidificando a juventude

No campo da cultura produzida em escalas industriais, quando se pensa na adolescência “moderna”, no jovem da “era digital-globalizada”, descreve-se logo a imagem de um sujeito desapercebido do mais comezinho senso crítico. É que “quem está na fase de transformações” pode tudo: de dançar as músicas analfabetas de Mr. Catra a permanecer horas diante da tela da televisão consumindo patéticos melodramas novelescos (das seis, das sete, das oito, das nove, das dez horas); de ver seguidas sessões de blockbusters hollywoodianos caça-níqueis a “torcer” pelas vítimas da acefalia que participam da “nave louca” dos reality shows, tudo é “fase”, “logo passa”. Afinal, na cartilha capitalista escrita para o público consumidor jovem, “aproveitar a juventude” é expressão sinônima de “estupidificar a juventude”.
A indústria cultural, no entanto, diferentemente de boa parte dos pais, sabe o significado do mito da adolescência moderna. Ultrapassando as pretensas crises emocionais que decorrem do período, as quais são deixadas para reflexão dos psicólogos e dos psicanalistas, cuida-se logo de “empurrar goela abaixo” o estereótipo estupidificante do adolescente bestializado, um “trapo humano” jovem e insensível. Despreza-se a leitura, tida como “tarefa chata da escola”, travestindo de “poesia” os “ex-my love” da vida — como se pudesse haver perenidade artística em algo tão ruim e de criatividade equivalente a de uma bactéria anaeróbia.
No mundo da música, surge a fórmula dos astros sob a forma de boys band: rapazes de boa aparência, hábeis na dança, cantando músicas com refrões mais açucarados que refrigerante de groselha, caem fácil no gosto das adolescentes que iniciam a convivência cíclica com a menarquia. Há também as cantoras “pop” do nível de Britney Spears e Miley Cyrus, que “inspiram” toda uma geração com o seu “talento” em provocar escândalos, usados espertamente para disfarçar a limitação vocal que as torna desafinadíssimas e, portanto, inaceitáveis a quem tenha um mínimo de inteligência musical auditiva.
Em geral, a reação dos pais consiste em manter-se “equidistante” das partes no conflito (o jovem e sua formação cultural). Deixam o adolescente ser orientado pela televisão (no Brasil, a escola há tempos não constitui o núcleo fomentador intelectual da sociedade), jogando-o no way of life da “Malhação”, novela televisiva que há décadas apresenta o melodrama de jovens da classe média carioca mais preocupados com quem vão transar nas baladas do que em passar no vestibular (se é que existem universidades nesse mundo fictício do tédio juvenil). Há ainda os pais de “espírito jovem”: “Embarcam na onda” e chegam ao cúmulo de reviver (ou seria viver?) a adolescência perdida — tomada na sua conotação mais ignóbil. Ei-los, então, ao lado dos filhos, lançados ao abrigo de barracas improvisadas na porta de shows cujos artistas apresentar-se-ão dali a meses! “É só uma fase”, dizem, buscando justificar a injustificável falta de senso crítico que os leva a dar com as canastras na água. “Logo passa.”

Bullying anti-inteligência

Toda essa complacência é incapaz de esconder, contudo, a decadência cultural que daí advém. O jovem, tomado nesse plano, consome programas de TV e letras de músicas que só acentuam o já acentuadíssimo grau de analfabetismo funcional da sociedade brasileira. E a coisa não para por aí. Há também o surgimento do bullying contra aqueles que negam o estereótipo estupidificante da adolescência. Se um jovem, por exemplo, põe-se a ler as partituras eruditas, há logo de ser chamado de “anormal”, “esquisito”; sim, pois todos os seus amigos que tocam o mesmo instrumento estão a dedilhar acordes entoando versos de canções que rimam “cantar” com “amar” ou contando as “estrelas lá no céu que vão buscar”. Claro, há também que lembrar das odes aos “praieiros e guerreiros que estão solteiros” — esses heróis da tragédia pós-moderna da intelectualidade. Da mesma maneira, se o adolescente é flagrado a ler obras de Machado de Assis ou José de Alencar, tomado por uma milagrosa inteligência inata que o impulsiona incontornavelmente ao conhecimento, deve tomar cuidado ao proceder em público. Uma atitude subversiva dessa ordem, nos moldes de leitura espontânea de literatura brasileira, sem a interveniência de imposição escolar para exames ou provas, pode gerar uma série de represálias discriminatórias, que vão dos conhecidos epítetos de “CDF” ou “nerd”, pechas que nenhum adolescente sente orgulho em carregar, podendo até atingir, em casos mais graves, o píncaro da bestialidade infanto juvenil manifestada num gesto abrutalhado de agressão ao jovem intelectual. Se esse mesmo jovem admitir-se, então, leitor de filosofia, aí a liberdade de pensamento periclita: não surpreenderia ver os pais do adolescente, hipnotizados pelo mito da adolescência moderna estereotipada desde um viés estupidificante, buscar em juízo alguma medida de interdição, se possível, internando-o num manicômio judiciário, onde estará a salvo de toda e qualquer reflexão filosófica.
Mas essas consequências a que aludo são previsíveis. Em uma sociedade de analfabetos funcionais, ser inteligente na adolescência virou “crime”. A conduta deve, portanto, ser vigiada e punida, para evitar, pela disciplina do corpo e da mente, que se rompam esses grilhões, engendrando uma “revolta cultural” contra a tecnologia da alma que converteu em prisão o mito de ser adolescente contemporaneamente.
“O que estava em jogo não era o quadro rude demais ou ascético demais, rudimentar demais ou aperfeiçoado demais da prisão, era sua materialidade na medida em que ele é instrumento e vetor de poder; era toda essa tecnologia do poder sobre o corpo, que a tecnologia da ‘alma’ — a dos educadores, dos psicólogos e dos psiquiatras — não consegue mascarar nem compensar, pela boa razão de que não passa de um de seus instrumentos.” (Foucault).
Há, em conclusão, um movimento coordenado da indústria cultural voltada ao público teen. A adolescência, enquanto “invenção” moderna, é um nicho mercadológico rentável como qualquer outro. Para ela, são forjados cantores de playback que lotam estádios, romances de bruxos infantis e vampiros, revistas que elegem “o colírio” ou “a mais gatinha”. Nesse “mundo adolescente”, ser “modelo” é a profissão dos sonhos, o cinema blockbuster de Michael Bay é mais importante que o de Ingmar Bergman e é normal ser um fã histérico acampando na porta de casas de espetáculos ou um fanático religioso mirim que se predispõe, com uma bíblia debaixo do braço, a “exorcismar o mal” da humanidade sem nenhum senso crítico.
Felizmente, como sói acontecer com toda a regra, também a pubescência apresenta suas exceções. A história registra casos de grandes nomes das artes cujo talento manifestou-se ainda cedo. Isto é, na adolescência. (continua no site abaixo)

as pessoas simplesmente se esvaziam

Em 1969, o editor John Martin ofereceu a Charles Bukowski US$100 a cada mês e todo mês de sua vida com uma condição: que ele saísse de seu emprego numa agência do correio se tornasse um escritor. Bukowski, com 49 anos de idade, o fez e em 1971 Martin publicou seu primeiro livro, Post Office pela editora de Martin, a Black Sparrow Press.
Quinze anos depois, Bukowsky escreveu a seguinte carta para Martin sobre sua alegria por ter escapado de seu emprego.
Aqui vai:
12 de agosto de 1986
Olá, John:
Obrigado pela carta. Eu não acho que machuca, às vezes, lembrar como você apareceu. Você conhece os lugares de onde vim. Mesmo as pessoas que tentam escrever sobre isso ou fazer filmes sobre isso, não conseguem entender direito. Eles chamam de ’9 às 5′. Nunca é das 9 às 5, não há paradas para refeições nesses lugares, na verdade, em muitos deles, para se manter o trabalho, você nem almoça. E ,tem também as horas extras que os livros nunca contabilizam da forma certa e se você reclamar, há sempre outro sacana pra pegar o seu lugar.
Você conhece meu ditado antigo, “A escravidão nunca foi abolida, ela apenas foi estendida para incluir todas as cores”.
E, o que machuca é a consistente diminuição de humanidade daqueles que lutam para manter seus trabalhos que não querem mas tem medo que as alternativas sejam piores. As pessoas simplesmente se esvaziam. São corpos cheios de medo e mentes obedientes. A cor deixa seus olhos. A voz se torna feia. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo fica.
Como um jovem eu nunca acreditei que as pessoas pudessem deixar suas vidas serem levadas a essa condição. Como um velho homem, eu ainda não posso acreditar. Por que eles fazem isso? Sexo? TV? Um carro ou pagamentos mensais? Ou crianças? Seus filhos vão fazer o mesmo que eles fizeram?
Antigamente, quando eu era jovem eu ia de emprego em emprego e fui idiota o suficiente para às vezes falar para meus companheiros de trabalho: “Ei, o chefe pode vir aqui a qualquer momento e nos mandar embora, assim, você não percebe isso?”
Eles então, só olhavam pra mim. Eu estava falando algo que eles não queriam que entrasse em suas mentes.
Agora, na indústria, há demissões em massa. São demitidos centenas e milhares e suas faces são assustadas:
“Eu dei 35 anos…”
“Isso não está certo…”
“Eu não sei o que fazer…”
Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho. Eu posso ver isso. Por que eles não conseguem? Eu percebi que um banco de praça era tão bom quanto ou ficar em um bar, bom igual. Por que não chegar lá antes de me colocarem lá? Por que esperar?
Eu me lembro uma vez, enquanto trabalhava como um empacotador em uma empresa de luminárias, um dos empacotadores falou: “Eu nunca vou ser livre!”
Um dos chefes estava passando (seu nome era Morrie) e deixou escapar uma deliciosa risada, apreciando o fato de seu subordinado estar preso por toda vida.
Então, a sorte que eu tive de sair desses lugares, não importa quanto tempo tenha tomado, me deu um tipo de alegria, um sentimento de milagre. Eu agora escrevo de uma mente velha e de um velho corpo, de um tempo onde a maioria dos homens nem pensa em chegar, mas já que comecei tão tarde, eu devo pra mim mesmo continuar e, quando as palavras começarem a faltar e eu precisar de ajuda pra subir uma escada e não possa mais distinguir um pássaro de um clip de papel, mesmo assim, eu ainda sinto que algo em mim irá lembrar (não importa quão longe eu vá) como eu escapei do assassinato, da trapalhada e do trabalho duro, até pelo menos, chegar a ter uma maneira generosa de morrer.
Não haver deixado perder totalmente a vida de alguém parece ser uma realização valiosa, pelo menos pra mim.
seu garoto,
Hank

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Veja bem, tudo vai dar certo É só acreditar em quem Conhece o fim de perto Pra discenir cores vibrantes E enxergar o que não vi...