sexta-feira, 6 de abril de 2012

A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…


— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.


— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.


— Tenho de ir — dizia.


— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…


— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…


— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.


— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…


— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.


— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.


— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
* * *
Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…



Rubem Alves



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fale/Faça


"As palavras têm poder. Mas não adianta só falar, você também tem que fazer" 
 Gabriel O Pensador.

Incrível

QUEDA LIVRE: O campeão mundial de mergulho livre (com recorde de 113m em apnéia) Guillaume Nery realiza um mergulho no estilo base jump no Dean's Blue Hole na cidade de Clarence em Long Island - Bahamas, filmado pela Julie Gautier também apneista. Este vídeo é uma ficção, um projeto artístico espetacular.


terça-feira, 3 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

domingo, 1 de abril de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Para onde estamos indo?

Estamos à beira de um colapso total na sociedade, estou falando sério mesmo. Tudo está rápido demais, tudo está correndo e não estamos calculando os prejuízos que esse comportamento traz. Tudo é para ontem, tudo já está milimetricamente calculado. Não podemos atrasar, não podemos cometer erros. Já não há tempo para o tempo. Pais já não tem tempo para serem Pais, crianças já não são mais crianças, onde estão às avós de hoje?  Mudamos tudo drasticamente para atendermos exigências criadas por nós mesmos para não se sabe o quê.

Perguntas que não fazemos: Para onde estamos indo com tanta pressa e para quê? O que queremos, por que queremos? Isso nos tornará melhores? Dias atrás lendo um livro de filosofia, Nietzsche para ser mais exato. Uma passagem me fez parar e refletir profundamente. Vou reproduzir o texto da passagem e espero não ser notificado pelo blogger, muito menos por qualquer entidade de direitos autorais.

“Mesmo diante do progresso extraordinário do homem diante da ciência e de seu quase total domínio diante das ciências naturais. Estabelecendo assim seu quase total controle da natureza. Suas realizações não parecem ter aumentado à quantidade de satisfação no que diz respeito à felicidade.”

Além do bem e do mal – Nietzsche

Após a leitura dessa passagem, passei a observar tudo com mais detalhes e tive a nítida impressão de que estamos correndo com muita velocidade para o nada, estamos indo sem rumo. E esse vício só cresce, e pior, estamos transferindo para as crianças e jovens. Não podemos adulterar a percepção que as crianças têm do mundo para que elas atendam uma necessidade que desconhecemos seu propósito.
Quando estou indo para o curso, tenho costume de ficar próximo à avenida e ficar vendo os carros passarem e aproveito para observar as pessoas. As expressões são as mesmas e mais medonhas possíveis. Muita gente estressada, muita gente sem paciência, com pressa e de “saco” cheio. Vale ressaltar que o texto reproduzido acima é de 1886. É a prova incontestável de que mesmo diante de todo domínio frente à ciência e tecnologia continuamos no mesmo estágio no que diz respeito à felicidade.

Estamos fazendo errado, estamos na pilha sem ao menos saber por que e para quê. Não há necessidade para tanta correria. Desenvolvemos um sistema de botar culpa em tudo, menos em nós mesmos. Devíamos reconhecer nossa culpa, nós criamos, moldamos e estamos desenvolvendo o mundo. Esse desenvolvimento não é de nós para o meio, mas sim do meio para nós. Estamos danificando nossa mente e destruindo o meio em que vivemos para satisfazer nossos pífios e egoístas desejos com pensamento de que somos donos e controladores de tudo. Pressão somada ao alto nível de estresse são os fatores determinantes para desencadear intolerância, agressividade excessiva, que incluímos falta de educação e respeito e demais comportamentos inadequados.

Proponho o dia do nada, este será o dia em que seremos nós, apenas humanos. Mas este tema será do próximo post.

Quer uma dica?

Desacelere, vá com calma. Talvez o grande motivo da já tão falada crise contemporânea que já temos e continuaremos a ter de depressão, seja causada por está busca desenfreada por nada. Apenas viva intensamente e aproveite ao máximo.

“Mais do que máquinas precisamos de humanidade” – Chaplin
“O homem é o câncer da natureza” – Millôr Fernandes